O invisível trabalho real
O que acontece quando o reconhecimento no trabalho deixa de ser apenas um elogio e se torna a energia que sustenta nossa saúde, nossa criatividade e o sentido do que fazemos? Um estudo com 18 trabalhadores de setores diversos, conduzido pelo pesquisador Ricardo Bertoni Pompeu, da Unicamp, revela que a satisfação de ser visto no cotidiano profissional está diretamente ligada ao que chamamos de saúde mental e bem-estar. A pesquisa ganhou força no Jornal da Unicamp, ao apresentar a tese Reconhecimento no ambiente de trabalho: indo além da Justiça Organizacional, que traz relatos de assalariados expostos a riscos ocupacionais ao longo do tempo.
'Eles estudam e trabalham exaustivamente, mas são sempre cobrados por aquilo que não fazem. Não basta o que já estão fazendo, pois sempre deveriam fazer mais, além do que recebem e do que lhes é pago. O reconhecimento é como se fosse um eterno devir, mas que nunca chega. Ouvem muito esse discurso de 'sair da zona de conforto'. Mas o que significa isso? Pelos relatos, ninguém se sente confortável!'
O estudo fundamenta-se na Teoria do Reconhecimento, do filósofo Axel Honneth, e na Psicodinâmica do Trabalho, do psiquiatra Christophe Dejours. Honneth aponta a luta por reconhecimento; Dejours descreve como o corpo se molda ao sofrimento para conseguir lidar com ele. O conceito de trabalho real surge como o esforço invisível necessário para concluir uma tarefa: há dimensões cognitivas, físicas, afetivas, emocionais e psíquicas que não aparecem no relatório final, mas pesam na saúde.
- O esforço cognitivo: escolher como apresentar dados, profundidade e método.
- O esforço físico: desconforto da cadeira, da iluminação e do equipamento.
- O esforço afetivo e emocional: não pode fazer o trabalho exatamente como quer, para não prejudicar colegas; surgem frustrações diante de limites reais.
- O esforço psíquico: a dúvida constante sobre se está bom o suficiente e o que os outros vão pensar.
Essa soma invisível explica por que muitos adoecem: a avaliação nas organizações costuma valorizar o resultado final, não esse trabalho invisível que fica por trás de cada relatório.
Duas patologias da organização
Os relatos revelam um caminho de sofrimento estrutural: contingencialidade e disjuntividade. A contingencialidade transforma o trabalhador em um 'just in time' humano: disponível exatamente quando a empresa precisa, sem considerar vida pessoal ou planos. Depois de usado, o funcionário pode ser descartado, sendo tratado como recurso temporário, mesmo com vínculo permanente.
A disjuntividade está ligada ao rompimento da temporalidade e ao apagamento da história profissional. O desempenho imediato vira requisito, e a trajetória do trabalhador perde relevância. Segundo Pompeu, essas patologias não decorrem da maldade de gestores ou de empresas específicas, mas de uma lógica organizacional que produz sofrimento em diversos setores.
O peso da regra e o cuidado com a vida
Desde 26 de maio de 2026, as empresas brasileiras têm a obrigação de identificar, avaliar e gerenciar fatores de risco psicossociais dentro do Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR). A medida busca reduzir o adoecimento mental, promover ambientes mais saudáveis e incorporar esses riscos aos processos de gestão e prevenção já previstos pela NR-1. No entanto, o pesquisador alerta: a regulamentação pode se tornar apenas uma formalidade de conformidade, em vez de uma ferramenta real de prevenção do sofrimento psíquico.
'A tendência é que muitas empresas produzam documentação para se defender de eventuais fiscalizações, e não necessariamente para melhorar o ambiente de trabalho. Elas mostram que cumprem o que a legislação exige, mas isso pode acabar servindo mais como proteção institucional do que como instrumento de prevenção do sofrimento psíquico.'
Para Pompeu, o adoecimento e os afastamentos tendem a ser tratados como questões individuais, e não como consequências da organização do trabalho. Ainda assim, as exceções que aparecem costumam ganhar destaque justamente por serem incomuns.
Caminhos para um equilíbrio real
Se reconhecermos o papel vital do reconhecimento para a saúde e para a qualidade do trabalho, como transformar essa energia em prática diária? O alinhamento psicoenergético começa pela escuta atenta, pela validação das pequenas conquistas, pela redução de metas abusivas e pela criação de espaços onde o esforço invisível possa ser discutido e valorizado. Tratar a pessoa em sua totalidade — vida profissional, familiar e espiritual — é o primeiro passo para uma produtividade que sustenta, em vez de esgotar.
Conectar a história profissional do trabalhador aos seus dias de hoje, respeitar a vida fora do expediente e exigir ambientes que cuidem do ser integral é a base para um futuro onde bem-estar e performance caminham juntos, não em sentidos opostos.
Pergunta para a reflexão
Como seu ambiente de trabalho pode reconhecer o seu esforço invisível e, assim, transformar saúde, energia e futuro organizacional em resultados reais?
Quais gestos simples de reconhecimento você pode exigir hoje para transformar seu ambiente em um campo de energia, cuidado e prosperidade?