Em uma conversa direta e serena, a médica paliativista Ana Cláudia Quintana Arantes mostra que falar da morte não é afastamento da vida, mas uma prática de cuidado que organiza o tempo, as escolhas e as relações. Ela, autora de A morte é um dia que vale a pena viver e embaixadora da Voa Health, reforça uma ideia simples e transformadora: a morte vale a pena quando há um encontro entre quem cuida, quem recebe cuidado e o tempo que resta.
O cuidado que faz diferença
A entrevista revela que não é a tecnologia ou a falta de recursos que definem o fim da vida, mas a ausência de conversa. Quando o tema é evitado, restam decisões apressadas, sofrimento prolongado e despedidas marcadas pela dúvida. A profissional aponta que, no Brasil, a lacuna é estrutural: políticas públicas avançaram, mas o número de equipes habilitadas em cuidados paliativos permanece baixo diante de uma população que envelhece rapidamente. A distância entre norma e acesso concreto é uma realidade constante.
"A morte vale a pena quando há esse encontro".
Ela lembra que a maioria das pessoas não morre de forma súbita; o percurso envolve doença e cuidado. Nesse caminho, o papel dos cuidados paliativos é essencial, ainda muitas vezes confundido com desistência ou fim iminente. A mensagem é clara: reconhecer o limite da vida pode, paradoxalmente, ampliar a qualidade do tempo que temos.
Por que o cuidado paliativo ainda chega tarde
Segundo a médica, a prática ainda é mal compreendida pela medicina, que treinou profissionais para tentar salvar vidas e, por vezes, encaram a morte como falha. "A gente foi treinado com uma ilusão de poder… a morte não obedece ao médico". Por isso, muitas equipes ainda recuam diante do domínio emocional do fim de vida, em vez de apoiar o cuidador e o paciente no limite.
O que muda quando o cuidado começa cedo? A resposta é simples e poderosa: a pessoa vive melhor. Sem alívio de sintomas, dificilmente recebe visitas ou desfruta do dia a dia. Iniciar cedo permite construir vínculos, alinhar desejos e estratégias, reduzindo o sofrimento de quem está morrendo e de quem fica.
A escola da vida: educação médica e diretivas
A médica aponta que educação médica já mudou desde 2022, quando o ensino de cuidados paliativos se tornou obrigatório nas faculdades. Mas ela alerta que ainda é insuficiente: há pouco tempo para ensinar experiência, sensibilidade e prática. O que se aprende, muitas vezes, é apenas sensibilização, não preparação completa para lidar com o fim de vida.
Outro ponto central é a discussão sobre diretivas antecipadas de vontade. O Brasil, segundo ela, não está preparado nem para o que já acontece: é um país que envelhece rápido e carece de estrutura para cuidar disso. Falar de diretivas é avançar para algo melhor, mas ainda lidamos mal com o básico.
O que define uma boa morte
"Não é uma morte bonita nem fácil", define Arantes. A boa morte é uma experiência de cuidado que respeita a dignidade de cada pessoa, independentemente de estar em casa ou no hospital, ou de receber determinados procedimentos. O elemento-chave é a conversa prévia: todos vão viver e morrer, e a diferença está em reconhecer o que se quer ou não.
O trio que decide além do leito
Quem decide até onde vai um tratamento? A médica afirma que são três: médico, paciente e família, em colaboração. O médico traz o conhecimento técnico, a família participa do cuidado, e o paciente define o que é limite para ele. Mas, como quem vive as consequências é o paciente, a decisão precisa ser centrada nele.
Desigualdade, abandono e cuidado humano
A cotidianidade da morte no país revela uma desigualdade brutal. A distância entre quem pode acessar tratamento, diagnóstico e cuidado afeta a experiência de morrer. E, ao discutir o fim da vida, a advogada e pesquisadora aponta uma verdade simples: que o cuidado paliativo não antecipa nem prolonga a morte; ele protege contra o sofrimento causado pela doença e pelo tratamento. Quando começa cedo, reduz o peso do sofrimento.
Mudanças profundas, significado da vida
Ao longo de mais de duas décadas acompanhando pacientes, Quintana Arantes aprendeu que não há necessidade de buscar um grande propósito no fim: o sentido da vida é viver, de forma coerente, entre o que se diz e o que se faz. Reconhecer a finitude pode libertar, ajudando a priorizar o que realmente importa e a criar memórias que sustentam quem fica.
Um convite para respirar com menos peso
O olhar da médica é um convite à reflexão sobre como cada um de nós pode transformar a relação com a finitude: conversar, planejar, cuidar da dimensão emocional, do apoio social e espiritual. O objetivo não é evitar a morte, mas viver bem até ela chegar, com dignidade e afeto.
Fechamento à brasileña: presença, cuidado e verdade
A entrevista não entrega respostas fáceis, mas oferece um mapa mais humano para atravessar o fim da vida com mais humanidade: reconhecer limites, conversar antes que o tempo acabe, e escolher caminhos que permitam dizer adeus com cuidado, amor e menos sofrimento.
E você, já começou uma conversa simples e verdadeira sobre o que quer para o fim da vida com quem ama? Qual detalhe de dignidade você gostaria que fosse preservado, hoje e sempre? Pense em um passo pequeno, como marcar uma conversa breve, registrar um desejo ou simplesmente dizer: escrevi isto para você, para que o cuidado exista antes que falte tempo.